segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Os alqueires

Se queres ser bom milheiro, faz o alqueire em janeiro.
(provérbio)


O alqueire era uma medida utilizada para medir secos (trigo, milho, arroz, entre outros), cuja quantidade de litros que levava era fixada ao nível dos concelhos, existindo muitas vezes procedimentos para a sua elaboração. 

O concelho de Santarém (a que a os moinhos da Ribeira de Muge pertenceram até à reforma administrativa do séc. XIX), na segunda metade do séc. XVIII, fixava precisamente que as medidas utilizadas pelos moleiros e atafoneiros eram os alqueires e meios alqueires. Estes tinham de ser aferidos, variando o preço conforme a medida era nova ou usada. 

Na imagem vemos um alqueire em exposição no Museu Etnográfico da Raposa, que foi um moinho em tempos. Nesta zona da Ribeira de Muge, pelos relatos que ouvimos aquando da elaboração da nossa dissertação de mestrado, era mais comum o meio alqueire. 

Referências Bibliográficas:
RODRIGUES, Martinho Vicente (2004). A Vila de Santarém (1640-1706): Instituições e Administração Local. S/l: Edição Câmara Municipal de Santarém. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Moinhos de Vento no Concelho de Penacova – Parte II

Ver parte I aqui.

Tendo em consideração os três conjuntos de moinhos de vento do concelho de Penacova que falamos na primeira parte (Serra da Atalhada, Portela da Oliveira e Gavinhos), assim como algumas das suas características específicas, nomeadamente a pluri-propriedade, ainda que no mesmo conjunto, importa agora refletir sobre os engenhos que temos hoje, assim como quais os caminhos que se poderão traçar no futuro.

Em primeiro lugar, há que ter em consideração que hoje em dia os moinhos têm o seu valor de uso ultrapassado, ou seja, existem hoje meios mais eficientes de produção de farinha para a alimentação humana. Mesmo a procura pela farinha artesanal, pelas suas características, não seria por si só motivo suficiente para colocar todos os engenhos em laboração constante, sobretudo em conjuntos como aqueles que encontramos em Penacova. Importa assim encontrar outros usos para estes elementos patrimoniais.



Interior dos engenhos da Serra da Atalhada, recuperado para voltar a moer cereais.

Esta busca por uma nova funcionalidade do património poderá ter graves consequências para a integridade patrimonial. E no caso dos engenhos do concelho de Penacova, conseguimos encontrar bons exemplos e exemplos menos bons. Contudo, antes de entramos especificamente nestes casos, importa refletir que outros usos poderão ser dados a edifícios moageiros, quando a sua função inicial (a moagem), já não se torna necessária? Sem dúvida, que a transformação de património in situ deverá ser um dos caminhos. Por esta via, um engenho recuperado e aberto a visitas, permitirá descobrir como funciona aquela tecnologia e a sua importância em determinado período histórico.

No entanto, será pertinente ter, como no caso da Serra da Atalhada, 21 moinhos, praticamente alinhados e com cerca de cinco metros de intervalo entre si, recuperados e a moer cereais? Será pertinente custear a manutenção destes? Estarão os proprietários interessados em manter esta situação? Não nos parece que assim seja. E ao fazê-lo, poderíamos afirmar que se estaria a enveredar pelo caminho da designada “histeria do património”, ou seja, a quase obsessão de tornar tudo património. Então, que outros usos podem ser dados para além deste?

Alinhamento de engenhos na Serra da Atalhada

Sem dúvida que aquele que é mais comum é a transformação em habitação. Um conjunto então, torna-se bastante apetecível para a instalação de um empreendimento. Não nos choca (e esta é uma opinião muito pessoal) a adaptação de engenhos para residências ou empreendimentos turísticos. Contudo, cremos que o termo correto será precisamente “adaptação”. Não se pode faze-lo de qualquer forma, pois terá sempre de ser colocada, em primeira instância, a integridade do conjunto.

Voltando ao caso específico de Penacova, nomeadamente ao caso da Serra da Atalhada, encontramos aqui aquilo que podemos considerar um bom exemplo. Assim, de todos os engenhos, temos quatro deles sob alçada de uma associação local. Deste, um foi recuperado para a moagem, e os restantes três foram adaptados para turismo. No entanto, a sua recuperação exterior manteve a sua traça original, não desvirtuando as características do moinho serrano. Para além destes, os demais engenhos deste conjunto quando recuperados, apresentam igualmente o respeito pela traça original, não ferindo o conjunto.


Interior de um moinho, na Serra da Atalhada, recuperado para turismo de habitação.

Por outro lado, encontramos os conjuntos da Portela da Oliveira e de Gavinhos, em que o cenário já não será tão interessante assim. Aqui encontramos frequentemente os moinhos rebocados a cimento portland, desvirtuando assim as paredes em silharia, típicas do moinho serrano. Também é comum encontrar-se a aplicação de azulejos, sobretudo para a colocação de dizeres que refletem, de quando em vez, o nome ou a propriedade dos moinhos.

Moinho com paredes rebocadas - Gavinhos

Moinho com azulejos aplicados

Há a referir ainda, neste caso, o alargamento de um dos moinhos da Portela da Oliveira, para a inserção de um espaço museológico: o Museu dos Moinhos de Vitorino Nemésio. Este espaço alberga uma exposição com um espólio interessantíssimo, do ponto de vista molinológico, e que vai muito além dos moinhos de vento. Com efeito, para além de vestígios destes, encontramos aqui também mós manuais e objetos ligados aos moinhos de água. Este é um outro uso, que a nosso ver, não choca com a integridade patrimonial.

 Museu dos Moinhos Vitorino Nemésio

No entanto, temos em conta que é difícil manter uma coesão arquitetónica ao nível do conjunto, pois cada engenho tem um proprietário diferente. E os seus proprietários deverão ter a liberdade fazer o que entenderem com aquilo que é seu. Mas encontramos na Portela da Oliveira o mau resultado de intervenções nos engenhos, que os desvirtuaram completamente. Uma boa solução seria a regulamentação da intervenção nestes engenhos através dos planos de ordenamento do território, nomeadamente com planos de pormenor. Com efeito, estes poderiam prever as disposições em relação ao exterior, tipos de portas e janelas permitidas, entre outros aspetos considerados pertinentes, à semelhança daquilo que já acontece hoje em dia nos centros históricos.




sábado, 4 de janeiro de 2014

Ermida da Memória (Nazaré)


A Ermida da Memória foi mandada erguer por D. Fuas Roupinho, junto à ponta rochosa do promontório da Nazaré com a marca da ferradura do seu cavalo, onde se deu em 1182 o famoso milagre da Nazaré (ver lenda aqui).

É uma construção cúbica, com uma cobertura piramidal. Esta cobertura é revestida a azulejos padronizados do séc. XVII, de tons azuis e amarelos. A entrada é encimada por um baixo-relevo do séc. XVI. O seu interior é constituído por dois pisos. Encontramos o interior do primeiro totalmente revestido a azulejos azuis e brancos do séc. XVIII, com motivos vegetalistas. Tem ainda duas placas em lioz com o relato do milagre.



O piso inferior é a gruta, ou cripta, onde se venerou a imagem de Nossa Senhora da Nazaré (que segundo a lenda, veio da Nazaré da Galileia, tendo sido escolhida esta zona pela presença relativamente de um mosteiro, do qual resta hoje a Igreja de S. Gião). A cripta é iluminada por uma janela, cujo feixe de luz incide no nicho onde se encontrava a imagem da virgem. A abóbada deste piso é também ela revista a azulejos, com a iconografia do milagre.

Bibliografia:

CONFRARIA da Nazaré (2004). “Ermida da Memória”, Caminhos do Espírito, Percursos da Arte. S/l: ed. Região de Turismo Leiria-Fátima e Comissão de Arte e Património da Diocese de Leiria-Fátima. (pp. 183-184)


TURISMO de Portugal (2009). “Caminhos da Fé”, Roteiros Turísticos do Património Mundial: Alcobaça, Batalha e Tomar, vol. III. S/l: ed. Turismo de Portugal. 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Os Moinhos de Vento no Concelho de Penacova - Parte I

O concelho de Penacova tem três grandes conjuntos de moinhos de vento,nomeadamente os da Serra da Atalhada (com 21 engenhos), Portela da Oliveira (com 21) e Gavinhos (com 14 engenhos). 

  
Moinho de Vento do conjunto da Serra da Atalhada

Os engenhos podem ser classificados como Moinhos de vento de torre fixa de tipo Serrano. Estes engenhos são construídos com grandes blocos de pedra, ficando as paredes em silharia. A tração é feita por rabo, ou seja, para rodar o capelo, de modo a apanhar o vento dominante, há uma vara que sai deste, do lado contrário ao mastro que é empurrada pelo moleiro, de modo a tentar apanhar o vento mais favorável à atividade moageira.


A CM de Penacova editou em 2005 uma pequena publicação sobre os sistemas de moagem no concelho, obra essa que nos dá algumas ideias interessantes da particularidade e organização deste setor no passado no concelho:

1. A existência de muitos moinhos no mesmo sítio relaciona-se com o facto de aí existirem as condições ideais, do ponto de vista éolico. Na verdade, a maioria dos moinhos eram independentes entre si, tendo proprietários diferentes. Contudo, no conjunto da Portela da Oliveira, verifica-se que alguns moinhos estão situados num local mais desfavorável, pois  mesmo moleiro daria assistência a mais que um engenho.

Moinho do conjunto da Portela da Oliveira

2. Os terrenos onde se implantaram os engenhos eram baldios, o que facilitava a obtenção da autorização para construção.

3. Os moinhos tinham apenas um casal de mós, negreiro. Contudo, no último quartel do séc. XX foi adicionado em alguns deles um segundo casal, alveiro, para a moagem de trigo, produzindo assim farinha branca. No entanto, e atendendo a que se estava perante engenhos que foram feitos apenas para albergar um casal de mós, estás adaptações levaram a que apenas se pudesse trabalhar com um casal de mós de cada vez.

4. No conjunto da Portela da Oliveira verifica-se, pelos pormenores da construção, que a tração destes moinhos pode ter sido feita em tempos por sarilho (um dispositivo interior que faz a rotação do cabelo, presente sobretudo nos moinhos de vento de torre fixa no Oeste e a sul do Rio Tejo). Existem igualmente memórias de pessoas mais velhas que referem que estes engenhos "não tinham rabo e eram movidos por dentro" (Gouveia, 2005: 18). 

Conjunto de Moinhos de Gavinhos

Bibliografia:
GOUVEIA, Henrique Coutinho (2005). Sistemas de moagem no Concelho de Penacova. S/l: Ed. Câmara Municipal de Penacova.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Moinho de Vento da Quintinha – Santiago do Cacém

  
O Moinho de Vento da Quintinha, situado nos limites da Vila de Santiago do Cacém, pode ser classificado como um moinho de vento de torre fixa, de tipo saloio (é rebocado, pintado de branco e com uma barra azul escura).

É desconhecida a data da sua construção. Só se sabe que foi registado em 10 de novembro de 1871. Trabalhou até 1966. Foi adquirido pela autarquia em 1970, contudo a sua recuperação só se verificou em 1982.

Desde essa data, sempre trabalhou, apesar de presentemente ter o mastro danificado, e aguardar pela sua reparação. Os munícipes podiam ver aqui trazer os seus cereais para moer, pagando uma maquia pelo serviço, em vez de um valor monetário. Para além disto, este engenho é o primeiro “moinho-escola” de Portugal, tendo já aqui se formado, para além de alguns estagiários, o moleiro do Moinho do Esteval (Montijo).


É constituído por três pisos, sendo no superior (também chamado de sobrado), que se encontra a moega. Esta é constituída por um casal de mós negreiro, reforçado a cimento e com cambeiros de chapa. O tegão, quelha e chamadouro são de madeira (2). A tração é feita por sarilho. Tendo sido colocado um cata-vento na cobertura, foi feita a montagem de modo a que pudesse ser colocada uma seta visível no interior (3), para o moleiro saber a direção do vento, rodando assim o capelo de modo a apanhar o vento dominante.


Bibliografia:

MATIAS, José (2002). Moinhos de Vento do Concelho de Santiago do Cacém, col. Memória e Escrita Alentejana, vol.4. S/l: Edições Colibri e Centro de Estudos Documentais do Alentejo.

domingo, 15 de dezembro de 2013

O Museu Municipal de Almeirim e os Museus em Almeirim


Foi na passada 6.ª feira que foi entregue o galardão do “Museu do Ano”, pela Associação Portuguesa de Museologia (APOM). Os três finalistas eram o Museu Machado de Castro, o Museu do Ar e o Museu Municipal de Almeirim. A distinção foi entregue ex-aequo aos dois primeiros, sendo que o MMA recebeu uma menção honrosa (distinção normalmente entregue aos finalistas que não são distinguidos).

Com certeza que a presença de António Nabais e António Viana (dois nomes no mundo dos museus com uma visão e um currículo brilhante) no projeto museológico e museográfico, não estará desligada da credibilidade que pode ser conferida à exposição, e que poderá ter catapultado para esta nomeação. A exposição, apesar de contida e com uma pluralidade de temas superior ao desejável num espaço daquela dimensão, não deixa de representar aquilo que é o concelho: parte da sua história, das suas tradições e das suas memórias. Pessoalmente, sou um crítico a este tipo de museus, precisamente pela sua pluralidade temática.

O concelho de Almeirim conta com mais duas exposições desta índole: o Museu Etnográfico da Raposa, instalado na Casa da Cultura desta freguesia, assim como um acervo patrimonial na sede do Rancho Folclórico de Benfica do Ribatejo. Estas, apesar de terem características indubitavelmente mais amadoras que o MMA, reúnem um interessante espólio das suas comunidades. A articulação que poderia ser feita, ao nível do município, com todos os espaços de exposição patrimonial poderia residir na criação de museus temáticos, isto é, cada espaço um destes espaços (e outros de potencial interesse) dedicados a um determinado tema.

Por outro lado, o edifício que alberga o museu está ligado a este e deve ser encarado como uma continuidade da própria exposição, segundo o que os principais investigadores da área defendem. Algo que podemos encontrar nas exposições da Raposa (a Casa da Cultura foi uma fábrica de descasque de arroz e antes disso houvera sido um moinho) e de Benfica do Ribatejo (com a instalação numa adega pertencente a uma casa agrícola). Contudo, no caso do MMA, a instalação no Centro Coordenador de Transportes Terrestres foi não mais que a reconversão de um edifício para o qual o seu uso inicial não se verificou, não podendo assim considerar-se o edifício como uma extensão da exposição. Também o projeto Centro de Interpretação de Almeirim, que irá ficar alojado nas Escolas Velhas, cumpre com este requisito, apesar de ainda não ser do conhecimento público quais as características e temáticas da exposição.


Na museologia, como em muitos outros setores da sociedade, deve imperar a cooperação entre as várias entidades com acervos patrimoniais, em detrimento do trabalho “por capelinhas”. Evita-se assim museus muito semelhantes num espaço geográfico muito circunscrito. Constrói-se uma rede com a qual se torna mais fácil de trabalhar, na medida em que cada um não precisa de puxar para si, porque todos têm matéria diferente, não se gastando sinergias na “concorrência”, mas sim naquilo que verdadeiramente importa: cooperação, divulgação, promoção e qualidade expositiva. 

domingo, 1 de dezembro de 2013

A propósito de hoje ser 1 de Dezembro

Pouco antes das 9 horas, os conjurados e seus aderentes, em número de 120 pessoas, dirigiram-se ao Paço da Ribeira, (…), e investiram pelos vários salões, enquanto que o padre Gonçalo da Costa disparava vários tiros para anunciar a revolta e fazer afluir a multidão ao Terreiro do Paço. Escondido num armário, o secretário Miguel de Vasconcelos foi abatido a tiro e o seu corpo, ainda com sinais de vida, lançado para a rua, onde o povo deu largas ao ódio que lhe votava como fiel servidor de Castela. A princesa Margarida quis impor-se aos amotinados, mas logo compreendeu que era inútil o apelo à fidelidade, pelo que foi mandada recolher nos seus aposentos. O venerado D. Miguel de Almeida, do alto do balcão principal, proclamou a liberdade da Pátria e a realeza do Duque de Bragança como D. João IV. 
SERRÃO, Joaquim Veríssimo (2001). História de Portugal – A Restauração e a Monarquia Absoluta (1640-1750), vol. V, 2.ª edição. S/l: Ed. Verbo. 

Aclamação de D. João IV - uma pintura de Columbano Bordalo Pinheiro, que frequentemente é associada a este dia.

Comemoram-se hoje 373 da Restauração da Independência. Este é um relato desse dia numa das várias “História de Portugal” que têm sido escritas. Pela primeira vez não é feriado. 

Se as políticas educativas se têm esforçado nos últimos anos por fazer cidadãos menos cultos e menos informados, para que sejam menos reivindicativos, não é menos verdade que se têm esforçado por apagar datas históricas e de relevo para a nacionalidade portuguesa. Acabar com este feriado (ou apenas suspende-lo por um número de anos), é mais um contributo para que a data caia no esquecimento. 

Não deixa de ser interessante de ver que esta foi uma data que passou a ser feriado porque assinala o fim do domínio do estrangeiro sobre Portugal, e que tenham sido forças estrangeiras, a dita troika, a exigir o fim de feriados nacionais (tínhamos muitos, dizem eles), e que tenha sido escolhido logo este. É pelo menos coerente, pois deixamos de ser verdadeiramente independentes, e voltamos a ser dominados por forças estrangeiras. 

É urgente que a sociedade civil se mexa, não só para restaurar este e os outros feriados abolidos, mas também para que esta data histórica não caia no esquecimento, e que os portugueses tenham verdadeira consciência da sua importância.