quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Rota dos Moinhos

Extracto da Carta Militar de Portugal, Folha 308 (2004). Com adaptações feitas por mim. 

Ontem tive a oportunidade de fazer um percurso pedestre do Concelho da Batalha, marcado junto ao eco-parque sensorial da Pia do Urso. No entanto, o grande atractivo deste precurso, ou pelo menos a razão que me levou a fazê-lo, foram os moinhos que se vão encontrando ao longo do percurso. 

Num total de seis conjuntos (assinalados no mapa acima com os números 1, 2, 3, 4, 6 e 7), sendo que o número de engenhos por cada conjunto varia entre um e três. Encontram-se em vários estados, desde totalmente degradados (4), abandonados (3) e até recuperados para outra finalidade (1), que julgo ser ou residência ou para turismo em espaço rural (pelo menos o conceito, não sei se conseguem reunir as condições necessárias do ponto de vista jurídico). 

Este é um percurso muito interessante, não só pelo moinho, como pelas paisagens e pelos trilhos, apesar de me ter perdido uma vez pelo facto da sinalização estar um pouco deficiente. Mesmo feito num dia com muita chuva e vento, não deixa de se poder aproveitar as suas qualidades. Recomendo vivamente a todos!

Deixo algumas imagens destes fabulosos moinhos!


1 - Este é visível da Pia do Urso 

 
2 - Este moinho encontra-se recuperado (ou pelo menos dá essa sensação) para outra finalidade, visto que já não tem velas

3 - Mais um, em que o abandono é bem evidente

4 - A ruína tomou conta deste moinho. Talvez a sua inacessibilidade seja o motivo. 

5 - Um vértice geodésico, situado no cimo de um monte. 

 
6 - Esta foto já foi tirada longe destes moinhos. É o conjunto mais interessante, visto que apresenta um moinho de vento rotativo (o da direita), visto que o que roda é toda a torre e não apenas o capelo, como acontece nos restantes. 

 
7 - Este foi um dos últimos moinhos que encontrei. Junto a ele estão mais dois, relativamente inacessíveis. 

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

As bruxas e o Pinheiro Real

As bruxas são um elemento fantástico que faz parte do imaginário da nossa cultura. Pegando na data de 31 de Outubro, que nos está próxima, e que é conhecida popularmente pela “Noite das Bruxas”. É celebrada essencialmente nos povos saxónicos, no entanto, não são apenas eles que têm bruxas.

As bruxas fazem parte integrante do nosso dia-a-dia. Uma bruxa na nossa cultura é vista como
 “uma vizinha idosa, que «lança mau olhado» e pactua com o diabo. (…) são mulheres que ultrapassam os 50 anos, isoladas, solteiras, coléricas, «que não gostam de crianças». As narrações atribuem-lhe dupla personalidade: durante o dia levam uma vida normal, mas compelidas pelo seu instinto a «deitar mau olhado», a matutar nos malefícios sobre as pessoas ou os bens dos vizinhos. De noite encontram-se nas encruzilhadas, de onde partem depois, «com uma luz no traseiro», para um sítio ermo (…), onde as espera o Diabo, com quem celebram orgias e tramam os malefícios do dia seguinte.” (Santo, 2000: 164).

E muito mais poderia aqui discorrer sobre as características das bruxas. São personagens extremamente ricas, e, como lá diz o povo, “eu não acredito em bruxas, mas que as há, há!”.

Em Paço dos Negros podemos encontrar um elemento que está intimamente ligado às bruxas. É o conhecido Pinheiro Real. Esta árvore, de proporções descomunais, mesmo para um pinheiro e onde, segundo M. Evangelista (2004), às terças e sextas se encontravam as bruxas. Neste local praticavam os seus rituais, sendo que daqui iam “correr as sete vilas acasteladas: - aboa aboa por cima de toda a folha”, era a fórmula que tinham de pronunciar.
Pinheiro Real, 2005


 O Pinheiro Real é que, coitado, já conta com uma idade bem avançada. A morte ronda-o. A última vez que o visitei, já em 2010, estava a secar. Tenho fotos de 2005 em que já se previa esta situação. Possivelmente, a praga de eucaliptos que o rodeou durante muito tempo a isso ajudou. Cumprindo aqui o papel do Velho do Restelo, a quem cabe apregoar desgraças, os eucaliptos são uma praga com a qual temos de ter cuidado. As suas raízes chegam longe, e sugam os nossos recursos aquíferos a uma boa velocidade. Longe de ser especialista no assunto, a falta de água que nos começa a assolar, deve-se em parte a esta propagação de árvores de “lucro fácil”. E com isto se está a perder um elemento da identidade de Paço dos Negros.

Pinheiro Real, 2010


Obras citadas:

EVANGELISTA, Manuel (2004). Lendas da Ribeira de Muge. S/l: Ed. Junta de Freguesia de Fazendas de Almeirim e Junta de Freguesia de Raposa.


SANTO, Moisés Espirito (1980). Comunidade Rural ao Norte do Tejo. Lisboa: Edição da Associação de Estudos Rurais.



domingo, 19 de setembro de 2010

Museu Arqueológico Martins Sarmento

Tive recentemente oportunidade de visitar o Museu Arqueológico Martins Sarmento (MAMS), localizado na cidade de Guimarães. Um espaço bastante interessante, sem sombra de dúvida, pela quantidade inacreditável de espólio que reúne. Podemos "viajar" desde as primeiras comunidades pré-históricas até às grandes civilizações. Aqui encontram-se vestígios do neolítico, calcolítico, mas também dos celtas e dos romanos.
Enquanto contemplava aqueles maravilhosos artefactos, sempre com uma curta e concisa legenda, deparo-me com alguns (e não foram apenas dois nem três), cuja proveniência dizia "Almeirim".

Fiquei espantado, sem sombra de dúvidas. Estando a mais de 300 Km de casa, encontrar algo que lhe faça referência, ainda por cima num prestigiado museu, foi motivo de estupefacção. Ao dirigir-me ao responsável, e ter-lhe dito que era do concelho de Almeirim, e que tinha visto algumas peças daí originárias, a sua resposta foi um "sim, temos aqui muita coisa de Almeirim".

E eu apenas me interrogo: porquê? Porque é que um museu, longe de Almeirim, constrói a sua reputação com base na diversidade de espólio de vários locais, entre os quais Almeirim, e em Almeirim não há um simples museu arqueológico ou um museu municipal com uma secção de arqueologia, que esteja aberto ao público. Gosto de saber a história da minha terra. História essa que muitas vezes é documentada por estes pequenos objectos, que ficaram enterrados desde civilizações longínquas, e que os arqueólogos põem à luz do dia.

Será que nós, em Almeirim, não somos merecedores de conhecer a nossa história? Somos dos poucos concelhos do país que tem apenas um imóvel classificado (que julgo até pertencer a privados), o que mostra bem o descuido a que tem sido votado muito do nosso património. Não será, com toda a certeza, por não termos património, por não termos raízes históricas, mas sim por estas não terem sido valorizadas.

Ainda bem que temos os nossos artefactos a salvo no MAMS, em Guimarães. Estão longe de nós, mas pelo menos estão bem conservados. Se alguém os quiser contemplar, sabe onde os encontrar! E vale apenas os 300 Km, não só por este museu, mas por toda a cidade de Guimarães.

Deixo aqui fotos de alguns dos objectos cuja origem apontava para Almeirim. As fotos podem não estar muito boas, atendendo a que foram tiradas com um vidro entre a máquina e o objecto.


Um espelho. Foi o primeiro objecto que encontrei que fazia referência a Almeirim



Lucerna



Uma taça de vidro, associada a sepulturas



Enócoa de vidro egípcia 

Quanto a este último objecto, confesso que não sabia para que servia. O termo "enócoa" não surge no dicionário Priberam. Ao colocar no Google, apareceu referido em http://www.museunacional.ufrj.br/MuseuNacional/arqueologia/Cult_Mediter.htm como sendo "um jarro de alça única utilizado para servir o vinho da cratera para as taças". 

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A Batalha de Aljubarrota e Almeirim

Iluminura de Jean Warvin da Batalha de Aljubarrota
(Crédito imagem: Fundação Batalha de Aljubarrota)




A 14 de Agosto de 2010 comemoram-se os 625 anos da Batalha de Aljubarrota. Comemoração importante, sem dúvida, visto que foi nesta batalha que se alicerçou as condições para ser estabelecida, definitivamente, a independência nacional. No entanto, que tem esta batalha a ver com Almeirim?

Existe um exercício em história que se chama "história contrafactual". É utilizado pelos historiadores para poderem perceber melhor a importância de determinado facto histórico e basicamente resume-se a tentar imaginar como seria os nossos dias se não se tivesse dado esse facto.

Basicamente, podemos perguntar-nos: se não tivesse existido a Batalha de Aljubarrota, existira Almeirim? Almeirim foi fundado pelas em 1411 por D. João I, que 26 anos antes combateu pela independência de Portugal no actual Campo Militar de S. Jorge. Se os portugueses tivessem perdido essa batalha, D. João poderia ter sido feito prisioneiro e até morrido, e hoje seriamos parte do Reino de Espanha. Mais que isto, os monarcas castelhanos, e mais tarde os de Espanha, possivelmente nunca procurariam o "desenfadamento" de Almeirim. Não viriam os escravos para o Paço Real da Ribeira de Muge (possivelmente nem seria construído), e Paço dos Negros, se hoje existisse, não teria com certeza esse nome. Ao não terem vindo os escravos, possivelmente esta zona seria demograficamente diferente.

Posto isto, podemos afirmar que a Batalha de Aljubarrota foi importante para o desenvolvimento de Almeirim, apesar do palco da batalha e a cidade estarem geograficamente separados por quase 100Km.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Os livros também são património III: O pequeno livro do grande terramoto


TAVARES, Rui (2009). O pequeno livro do grande terramoto. Lisboa: Tinta-da-China.

Mais uma leitura que termino. Uma reflexão fora de série sobre um dos grandes acontecimentos da nossa história, e que como o autor faz notar, mudou a nossa história: o terramoto de 1755. 
Mais que contar a história do terramoto de 1755, o autor explica como determinados aspectos nos fazem perceber que nada ficará igual. O primeiro exemplo que refere, já no nosso séc. XXI, é o ataque às Torres Gémeas, a 11 de Setembro de 2001. Um dos aspectos que nos pode fazer perceber que mudamos uma página na história é o facto de nos lembrar-mos precisamente do que estávamos a fazer naquele momento. Eu tinha 13 anos, estava em casa com a minha irmã e estava-me a divertir a passar de uns canais para os outros, porque tinham todos a mesma imagem. Até que me apercebi da verdadeira dimensão do fenómeno, e aí sim, parei em algum deles, e ouvi, até que vi o segundo avião embater e tudo mais. 
Permitiu-me ainda descobrir alguns pormenores sobre este período que ignorava por completo. Manuel da Maia teve sete projectos para a reconstrução da cidade de Lisboa, e o Marquês de Pombal só o foi efectivamente algum tempo depois do terramoto, pelo que a reconstrução da baixa lisboeta deve-se a Sebastião José Carvalho e Melo, e não ao Marquês de Pombal. Um outro aspecto, foi a criação da Real Mesa Censória, com a extinção da Inquisição. 
O autor envereda ainda num exercício, chamado "história contrafactual", ou seja, imaginar como seriam o dia-a-dia de alguém se não tivesse existido o terramoto. Exercício brilhante, sem dúvida, e que reforça o impacto que este teve para a história. 

Imagem da Internet. 

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Moinho do Papel

As duas grandes pedras redondas serviam para desfazer o algodão com o qual se fazia o papel.


Exterior do moinho de papel onde são visíveis as chamadas rodas horizontais. 

Tive hoje a oportunidade de (re)visitar o Moinho do Papel, em Leiria. Um espaço muito interessante, sem sombra de dúvidas. Para além de perceber melhor como funciona o moinho de rodízio, e o moinho de roda vertical (azenha). Foi-me permitido ver como se faz farinha, os três tipos de farinha que ali se fabricam (e vendem): trigo, centeio e milho.
Para além disso, e entrando pelo domínio do papel, é possível ver fazer papel. O papel até à segunda guerra mundial era feito em fibra de algodão, sendo esse mesmo que se consegue ver aí. De referir que esta foi a primeira fábrica de papel em Portugal, determinada por um alvará régio de D. João I, em 1411.
A valorização de um espaço que estava completamente votado ao abandono, e que hoje é um espaço digno de ser visitado. Para além de uma excelente recuperação que foi feita ao espaço, é ainda possível ver e fazer quer farinha quer papel. Isto insere-se dentro de um sector que cada vez cresce mais: o saber-fazer, o experimentar fazer algo.

sábado, 12 de junho de 2010

Fonte de Vale Medeiros


Esta, posso afirmar, é um dos mais embelmáticos e mediáticos locais de Paço dos Negros. Ainda me lembro quando saiu n' "O Mirante" várias notícias quer diziam que a água apresentava uma quantidade elevada de coliformes fecais, e que não podia ser bebedia. Eu, que toda a minha vida bebi daquela água, achei um tremendo disparate. E para além de mim, foram mais umas tantas pessoas.

O disparate acabou por se provar. Um grupo de cidadãos juntou-se, e pagou análises no Insitituto Ricardo Jorge, e no resultado apareceu, preto no branco:

"Água própria para consumo" 

Foi aqui que se dismitificou mais uma daquelas coisas que as vezes se lembram de falar... Vá-se lá saber porquê...
Uma parte substancial da população de Paço dos Negros bebe água daqui. Sempre foi assim, e não é por alguém dizer que a água está inquinada que vai mudar. Pelo menos enquanto não se provar realmente que ela não é própria para consumo.
Para além da população de Paço dos Negros, ja lá apanhei pessoas de bem longe. Cartaxo, Salvaterra de Magos, entre outros locais.
Este é um testemunho que se pode afirmar que marca a identidade de Paço dos Negros e faz parte do seu património...