segunda-feira, 8 de março de 2010

Maceira-Liz


Tive o prazer de explanar os meus conhecimentos acerca de um tipo específico de património cultural (o património industrial) com base numa fábrica bastante conhecida:  a Maceira-Liz. O presente estudo foi realizado no âmbito do seminário de Património e Cultura das Organizações do 2.º Ciclo (antigos mestrados) que me encontro a frequentar na Universidade de Coimbra.

O "desafio" revestiu-se, pelo menos para mim, como algo inovador. Consistia em escolher como objecto de estudo uma instituição que, à partida, nada tinha que ver com património cultural, mas que gerava algum, ainda que de forma involuntária, assim com a cultura empresarial adoptada. Neste âmbito, julgo ter escolhido uma excelente instituição que cabe dentro destes parâmetros: a Maceira-Liz, que à primeira vista, nada liga o seu cimento ao mundo da cultura, revestiu-se para mim como uma enorme surpresa. 

A Maceira-Liz iniciou a sua laboração em 1923, no edifício da foto, com uma só linha de produção. Ao longo da história desta instituição são criadas mais cinco linhas, sempre com a tecnologia mais avançada para a altura, sendo que actualmente apenas se encontram duas delas em laboração. Aliás, na base de em quase 90 anos de existência, ter sempre acompanhado e actualizado a sua produção com os mais modernos meios de fabricação de cimento, torna-se um dos factos que conduz a uma das características do património industrial: a sua efemeridade, ou seja, a sua curta duração no tempo. 

No entanto, para além de todo o património gerado em torno da fábrica de cimento, surgiu também um bairro operário em torno desta, que se pode afirmar que constitui igualmente um precioso testemunho do património desta instituição (tanto mais que é classificado pela própria autarquia como de Valor Municipal). Aqui, para além de casas dos operários, capatazes e engenheiros (que apresentavam características distintas entre si), e igualmente possível encontrar várias valências que contribuíram para que a população da fábrica, dos anos 30 ao 25 de Abril de 74, tivesse um nível de vida muito acima do da maioria da população portuguesa. Falo aqui de escolas, hospital/ posto médico, balneário, restaurante, farmácia, cooperativa de consumo ou até uma pequena capela.  No entanto, existiu sempre um controlo por parte da direcção da fábrica aos operários, de modo a que estes subscrevessem os "bons costumes" do regime do Estado Novo, que na altura vigorava.

Depois da análise da evolução histórica da fábrica, assim como do seu património gerado, abordei a sua própria cultura empresarial. Deste modo, descobri que está a passar, progressivamente, de uma cultura mais fechada, para uma mais aberta. Por outro lado, ao ter criado um museu, a Maceira-Liz está a conservar uma parte do seu património, não só material, mas também imaterial. Sobretudo este é transmitido pelos antigos operários reformados, que actualmente fazem visitas guiadas ao museu. Apontei este facto como sendo a grande força deste espaço, uma vez que mais que os conteúdos, a vivência destes homens naquele espaço faz parte integrante do património da Maceira-Liz.

Por fim, terminei dando algumas sugestões de modos como a Maceira-Liz pode optimizar os seus recursos patrimoniais, com dois eixos: uma valorização económica (por via do turismo industrial) e uma valorização por meio de criação de sentimentos de pertença entre funcionários e empresa.