domingo, 17 de fevereiro de 2013

A Ribeira de Muge no primeiro mapa de Portugal








O primeiro mapa de Portugal continental, apesar de algumas controvérsias em torno deste e do seu autor (Fernando Álvares Seco), transmite-nos alguma informação sobre a zona que a que nos temos dedicado em termos de investigação: o médio curso da Ribeira de Muge, delimitado a montante pela afluente Ribeira do Chouto e a jusante pela afluência da Ribeira da Lamarosa. 

Mapa de Portugal de Álvares Seco - Fonte: BNP online
  
Contudo, importa ter em consideração que a primeira edição deste mapa data de 1561, em Roma. Foi dedicado a um cardeal (Guido Sforza), daí ter as dioceses delimitadas. Contudo, os autores que lemos apontam como provável a sua utilização para fins militares, devido a uma apresentação da linha da costa com bastante rigor, assim como da rede hidrográfica e das pontes. Pegando sobretudo nestes últimos aspetos, podemos estabelecer algumas análises e levantar algumas questões em torno da Ribeira de Muge.

Em primeiro lugar, importa ter em consideração que o mapa foi elaborado, possivelmente, com base em vários relatos que existiam sobre viagens feitas, descrição de locais, entre outros. Os itinerários de Fernan Colón (elaborados possivelmente entre 1517 e 1523), são apontados como um dos documentos que podem ter sido a base para a elaboração do mapa, e têm descrições da região de Almeirim. Talvez isso possa contribuir para que a zona não tenha muitos erros ao ser grafada no mapa.

Mapa de Álvares Seco (pormenor) - Fonte: BPN online

Ao observarmos a zona em questão, podemos tentar estabelecer algumas ilações e tentar levantar algumas questões, nomeadamente:
·         * Conseguimos ver representada a Vila de Muge, então sede de concelho.
·         * Entre o desaguamento da Ribeira de Muge no Rio Tejo e a confluência da Ribeira da Lamarosa com esta surgem duas pontes. A primeira será, certamente, a Ponte Romana de Muge, que ainda hoje existe. E quanto à segunda? Estará representada no sítio correto? Não ficaria junto à localidade da Raposa, já no Termo de Santarém? Ou não poderá também ser o pontão, referido que existia junto a um moinho doado por D. Sebastião aos frades do Convento da Serra?
·         * Indo a “navegar” na ribeira de jusante para montante, encontramos após a Ribeira da Lamarosa, na margem esquerda, um topónimo “Moinh os de Gs”? – será “Moinhos do Gomes”? Nesse caso, estará a referir-se ao Moinho do Gomes, construído em 1459 por Gomes Eanes, mas na margem oposta? Ou será um qualquer engenho (ou conjunto de engenhos) que à época tiveram uma grande importância por qualquer fator por nós desconhecido, e que na cartografia do séc. XIX aparece referido como o “Moinho do Diego”?
·         * “Paços da Serra”. Outro topónimo que, pelo nome em si, se diria ser o Paço Real da Ribeira de Muge. Contudo, a sua localização no mapa parece-nos ser mais a do Convento de Nossa Senhora da Serra. No entanto, foram várias as relações estabelecidas entre estes dois locais desde o séc. XVI, tendo inclusivamente o Paço Real sido designado precisamente por Paços da Serra. Para além disso, há que ter em consideração que não há um forte rigor geográfico neste mapa, nomeadamente ao nível da escala.
·         * No curso da ribeira surge uma ponte. Será a célebre Ponte Romana localizada perto da confluência da Ribeira da Calha (não representada no mapa) com a Ribeira de Muge, junto à Herdade da Ponte Velha? Estaria essa mesma ponte ainda transitável nesta época? Nesse caso, teremos de ter em conta que os “Paços da Serra”, caso sejam realmente o Paço da Ribeira de Muge está erradamente representado, visto que se situa a montante da ponte romana e não a jusante. 

Vestígios da Ponte Romana na Ponte Velha - Foto de Manuel Evangelista