segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O “Passo dos Negros” à luz dos registos paroquiais do séc. XVIII

Tomando como fonte principal os registos paroquiais do séc. XVIII, mais propriamente o primeiro livro deste registo, que medeia o período de 1706-1741 (ainda que incompleto), iremos desta feita tentar analisar quem viveria no espaço do Paço Real da Ribeira de Muge neste período.

O espaço que acreditamos ser aquele que hoje conhecemos como as ruínas do Paço Real da Ribeira de Muge era nesta época abrevado pelos padres que serviram a Paróquia de Santo António da Raposa como “Passos dos Negros” ou simplesmente “Passos”. De entre os vários assentos que temos com referência a este local, destacam-se dois casais: João Nunes e Maria Rodrigues (ou Maria Roiz*) e Domingos Nunes e Maria Lopes. Assim sendo, torna-se interessante seguir os passos destas famílias.
                                              
                                 Árvore Genealógica de João Nunes.

Elaboração através da tecnologia MyHeritage Family Tree Builder

Não temos conhecimento quando se casam João Nunes e Maria Rodrigues. Contudo, sabemos que pelo menos quatro dos seus seis filhos, quando foram batizados, viviam neste local: Isabel (1717), Maria (1719) Joana (1719) e António e José (1723 – gémeos?). Possivelmente aqui terão nascido, visto que as crianças eram batizadas ainda em muito pequenas – até devido à alta mortalidade infantil existente à época, e à necessidade de garantir a salvação da alma. Se estes foram abrevados pelo Padre Pedro de Barros, que colocava no assento o local onde viviam os pais do batizando, o mesmo não fazia o Padre Manuel Ribeiro, que batizou os dois primeiros filhos do casal: Manuel (1711) e João (1715). Seria que já nesta altura o casal aqui vivia?

Será também enquanto moradores no Paço Real da Ribeira de Muge que irá morrer uma filha ao casal (Joana – 1721). Em 1719 morre um Manuel Nunes, morador neste local, que podemos questionar-nos se teria algum parentesco com João Nunes (seria seu pai?). Sabemos que não será o seu filho mais velho, pois este irá casar-se em 1736 com uma viúva, Jacinta Maria. Curiosamente, é o mesmo ano em que volta a casar João Nunes (que ficara viúvo em 1729, quando vivia no Arneiro da Volta), com Leonor Nogueira. Os pais desta eram naturais do Moinho do Pinheiro e João Nunes vivia, à época, na Parreira.

Um outro aspeto curioso, que nos pode remeter para a importância social que teria João Nunes, são os padrinhos dos seus filhos. Paulo Soares da Mota, almoxarife do paço e residente em Almeirim é o padrinho dos seus cinco filhos mais velhos, juntamente com a sua mulher, Josefa Maria. Seria João Nunes um criado do próprio Paulo Soares da Mota, ou o responsável pelo paço na sua ausência, e que executava a gestão diária de acordo com as suas instruções? Quanto aos dois filhos mais novos, o padrinho é António Rodrigues, morador no “Moinho do Passo dos Negros”, e sua filha, Josefa. Evangelista (2009), aventa a possibilidade de Paulo Soares da Mota ter morrido no início da década de 20. Será por esta razão que não é padrinho destes dois últimos filhos de João Nunes? Contudo, a escolha de António Rodrigues não deixa de ser interessante. Este comprara o moinho em 1719, por 180 mil réis. Logo, podemos crer que se tratava de um proprietário não diremos abastado, mas com algumas posses. Estaremos então perante os mais “importantes” residentes da Ribeira de Muge?

Um outro aspeto curioso, ainda dentro deste mesmo tema, prende-se com o facto de, entre 1515 e 1525 estarem assentados 30 casamentos, sendo que em cinco destes, João Nunes foi testemunha, sendo assim uma pessoa frequente, nesta época, a quem se recorria para apadrinhar estas cerimónias. Destes, há a descartar o de Juliana Rodrigues com Francisco Dias, em 1722. Esta Juliana era moradora no Moinho do Passo dos Negros”, e filha de António Rodrigues, o que confirma o “compadrio” entre ambos. O mesmo é confirmado pelo número de vezes que foi padrinho de batismo, entre 1711 e 1719, em que num espaço de oito anos, João Nunes apadrinha seis crianças, cinco das quais em conjunto com a sua mulher.

No que diz respeito ao outro casal que na segunda década do séc. XVIII habitou os “Passos dos Negros”, verificamos que à partida, não seriam tão influentes como João Nunes e Maria Rodrigues. Com efeito, enquanto residentes neste local, apenas surgem quatro registos relativos a Domingos Nunes e Maria Lopes. Contudo, antes de nos determos sobre estes, devemos lançar-nos numa outra interrogação: existiria alguma ligação familiar entre Domingos Nunes e João Nunes? Seriam irmãos ou primos? Não o sabemos. Contudo, fica a interrogação levantada. É curioso que “Nunes” é um apelido recorrente nos “Passos dos Negros” nesta época. Para além destes dois sujeitos e Manuel Nunes, aludido anteriormente, existe também um António Nunes, que em 1728 fica viúvo de Sebastiana Santos (e no registo menciona que esta era pobre). Estariam todos eles ligados por laços familiares?

Árvore Genealógica de Domingos Nunes.
Elaboração através da tecnologia MyHeritage Family Tree Builder

São batizados no tempo em que foram moradores em “Passos dos Negros” três filhos de Domingos Nunes e Maria Lopes: Ana (1715), Mariana (1717) e Manuel (1721). Aliás, não temos conhecimento, segundo o disposto no registo paroquial, que o casal tenha tido mais filhos. Sabemos que em 1722 o casal está a viver no Moinho da Ponte Velha, pois é aí que toma como afilhado o filho de João Simões e Mariana Carvalha, que também aí moravam.

Ainda uma outra pessoa digna de interesse: Inácio Santiago. Este, natural da Freguesia do Chouto e morador no Moinho da Parreira em 1727, ano em que se casa com Josefa Maria, natural da freguesia de Vale Cavalos e moradora no mesmo local. Ambos já eram órfãos à data. Será ainda no Moinho da Parreira que, em 1731, será batizado Manuel, filho deste casal. Todavia, em 1737 irá morrer-lhes um outro filho, João, sendo nesta altura moradores já nos “Passos dos Negros”. Em 1739, ainda neste local, morre a própria Josefa Maria. Em 1740, no assento de casamento entre Domingos Álvares e Isabel Maria, de que Inácio Santiago é testemunha, é mencionado como morador nos “Passos dos Negros”. Irá voltar a casar, em 1741, com Mariana Dias (do Casal da Machuqueira – Lamarosa). Não é aqui referido onde vivia Inácio Santiago. Viveria ainda no mesmo local?

Para além destes, existem mais alguns assentos nos registos paroquiais que mencionam os “Passos dos Negros”, com os quais, contudo, não é possível estabelecer relações de continuidade, como fizemos até aqui. Em relação a batismos, temos notícia apenas de mais um, para além dos aludidos anteriormente. Foi em janeiro de 1718, de Josefa, filha de Manuel da Silva e Macária Maria. Está morrerá no mesmo ano, em 24 de novembro.

Já em relação aos assentos de óbitos, surgem-nos mais quatro de moradores nos “Passos dos Negros”: em 1715 o de Manuel Luís (casado com Sebastiana Dias), em 1727 o de António Marques, em 1736 o de Maria Martins e em 1738 o de Manuel, filho de Maria (o registo está danificado, e não é percetível os apelidos em questão).

No que diz respeito a casamentos, em 1724, um Manuel (cujo apelido não é percetível), aqui morador, é testemunha do matrimónio de Manuel Rodrigues (do Vale de Inferno) e Maria Nunes (dos Abobrais). Em 1728, Francisco Freitas, igualmente morador nos “Passos dos Negros”, é testemunha de casamento de António da Silva (de Lamego) e de Polónia da Silva (de Pombal). Sobre este último enlace, podemos levantar algumas interrogações, com a possível importância social dos noivos, visto que além dos serem de longe, a cerimónia foi cocelebrada pela Superior do Convento da Serra, o Padre Frei Alexandre da Purificação.

Por fim, e para encerrar este tema, resta-nos ainda abordar uma questão: o espaço dos “Passos dos Negros” tinha uma capela, dedicada a S. João Baptista. Contudo, verificamos que todas as cerimónias eram efetuadas aqui, mas sim na Igreja Paroquial de Santo António da Raposa. Exceção feita a dois casamentos, em 1715 e 1716, de que João Nunes é testemunha.  

* Surge como Maria Rodrigues quando o assento é feito pelo Padre Pedro de Barros e como Maria Roiz quando este é feito pelo Padre Manuel Ribeiro.

Bibliografia e Fontes:
(1706-1741). Livro dos defuntos, dos baptizados e dos casados – Raposa (Sto. António).
EVANGELISTA, Manuel (2011). Paço dos Negros da Ribeira de Muge: A Tacubis Romana. S/l: Edição do autor.



Com esta publicação, encerramos o propósito a que nos submetemos no início de 2014: publicar um tema por mês, todos os meses, sobre o Paço Real da Ribeira de Muge, no ano em que se assinalam 500 anos da sua conclusão. Clique na imagem para aceder ao índice com todos os temas.



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