quinta-feira, 11 de abril de 2013

Moinho do Diego e a cartografia do séc. XIX - Parte I


De um conjunto de cinco mapas de Portugal (encontrados no portal OldMaps), situados cronologicamente entre 1797 e 1883, surge em comum um lugar assinalado, designado por “Moinho do Diego”. Este localizava-se entre as ribeiras da Lamarosa e de Muge, aproximadamente junto ao sítio onde se juntam. Juntamos a este um sexto mapa, sem legenda, que encontramos na internet, e do qual não temos informação nenhuma, apesar de nos parecer ter alguns aspetos interessantes. 

 A – (1797), “Portugal”, por William Faden

Neste primeiro mapa, o Moinho do Diego surge entre as duas ribeiras, como já referimos. Contudo, podemos perguntar-nos qual a sua importância nesta época. Surgem as principais localidades grafadas, apesar de alguns erros de representação (Muge está no lado errado da ribeira e o Porto de Muge está a norte de Muge). É ainda interessante de verificar que podemos encontrar um lugar designado por “Muja”, que possivelmente será o Paço Real da Ribeira de Muge, que à data da elaboração do mapa já pertencia à casa dos Condes da Atalaia.

B – (1829), “Portugal”, por S. Hall.

Neste segundo mapa, um pouco mais detalhado que o anterior em termos de estradas, podemos constatar mais alguns pormenores interessantes. Em primeiro lugar, passava junto ao Moinho do Diego uma caminho, possivelmente secundário (tendo em conta que a linha que o assinala é substancialmente mais fina que as outras). Este caminho tinha origem no Escaroupim (aldeia avieira, onde existia um porto de travessia do Tejo em barcas), e ia dar à estrada que conduz Almeirim a Coruche. Mais uma vez surge o lugar de “Muja” neste mapa. A ser o Paço Real da Ribeira de Muge, ou o Paço dos Negros como já devia ser conhecido nesta altura, está mal assinalado, visto que este se encontra não à esquerda da via Almeirim-Coruche (de que é herdeira a atual N114), mas à direita da via Almeirim-Lamarosa (a atual EM578 que liga estas localidades, passando por Fazendas de Almeirim, Paço dos Negros, Arneiro da Volta, Monte da Vinha e Zebro).

C – (1835), “Portugal”, por Rest. Fenner.

Neste terceiro mapa encontramos a representação do Moinho do Diego num mapa mais desprovido de pormenores. Com efeito, não surgem aqui outros lugares que víamos nos anteriores (como Almeirim, Santa Marta, Chouto, Lamarosa ou Coruche). Será isto significado que tinha uma importância de maior, hoje para nós desconhecida? Poderia ser (e isto é apenas uma suposição da qual não temos fundamento algum), um lugar importante naquela via, como sítio de repouso e descanso, um pouco na ótica das atuais estações de serviço das nossas autoestradas?

D – (1855), “Spanien, Portugal SW”, por Heinrich Berghaus, Carl Flemming, Carl Sohr e A. Theinert.

Neste mapa aparece-nos novamente o caminho que parte do Escaroupim. Contudo, neste caso, prossegue até “Ponte dSoro”, ou seja, Ponte de Sor.

Estes quatro mapas podem ter sido feitos a partir de outros, tendo por base o mesmo levantamento. Cremos poder afirmar isso pelo simples facto de todos terem a mesma imprecisão na representação de Muge, a vila que seria sede de concelho até à reforma liberal de 1836: a localidade está representada na margem direita da Ribeira de Muge, e na verdade encontra-se na margem direita. Contudo, apesar desta “coincidência”, cremos que esta é uma possibilidade bastante remota, pela quantidade de outros pormenores que há nuns e não noutros.

E – (1883), “Portugal 4”, por Letts, Son & Co.

Já neste mapa encontramos Muge representada corretamente. Por outro lado, o caminho que no mapa anterior conduzia o Escaroupim à Ponte de Sor, já não passa junto ao Moinho do Diego, mas sim ligeiramente mais a sul. Será a mesma via representada no mapa D, representada num local diferente? Ou será a via apresentada no mapa B como saindo do Escaroupim para a Ponte de Sor, passando entre Lamarosa e Erra, até Ferro de Vacas? Neste último caso, poderá não aparecer a via que liga ao Moinho do Diego simplesmente porque, sendo secundária (como a consideramos anteriormente), apenas aqui aparecem as vias principais?
Um facto curioso neste mapa, que não poderíamos deixar de fazer notar, é a inclusão da representação das linhas de caminho-de-ferro. Surge já a linha do norte, cujo primeiro troço (Lisboa – Carregado) foi inaugurado em 1856 e em 1859 já chegava a Santarém, e a linha do Leste, que ligava Abrantes a Elvas, concluída em 1863.


Por fim, este último mapa, mandar-nos-ia a prudência da investigação, nunca utilizar. Porque nada sabemos dele, pelo menos até à presente data. Contudo, ele tem alguns aspetos sobre os quais não poderíamos deixar de refletir. Em primeiro lugar, surge “Moinho do Diogo” e não “Moinho do Diego”, ou seja, a forma portuguesa do nome. Poderá ser, por isto, um mapa posterior aos restantes, sendo o nome do lugar pela linguagem já ter sido “aportuguesado”. Sobre isto, poderemos ainda aventar uma teoria, reforçando contudo que não temos bases para esta, e não passam de um mero exercício de suposições: a existência do nome “Diego” virá de um qualquer sujeito de nacionalidade espanhola, que se fixou em Portugal, especificamente neste local. Poderia ser o moleiro (que neste caso estaria ao serviço de um português), ou o próprio proprietário?

Para além disto, há ainda que ter em vista que as linhas de água das ribeiras não estão apresentadas no mapa, pelo que se torna mais difícil estabelecer a correta representação espacial dos lugares. Há um caminho que passa relativamente perto do “Moinho do Diogo”, contudo, cremos que podemos reforçar aqui a teoria de que a estrada que liga o Escaroupim ao “Moinho do Diogo” é uma secundária não representada, e que as que estão a sair dali serão as mesmas do mapa B e E.

Bibliografia e outras fontes
http://www.oldmapsonline.org
SERRÃO, Joaquim Veríssimo (2003). História de Portugal – Do Mindelo à Regeneração (1832 – 1851), vol. VIII, 2.ª edição. S/l: Ed. Verbo.
SERRÃO, Joaquim Veríssimo (1986). História de Portugal – o Terceiro Liberalismo (1851-1890), vol. IX. S/l: Ed. Verbo.