segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Aparelhos de limpeza de cereais e descasque de arroz: a tarara e o aviador – Parte I

Tendo recentemente, ao consultar as estatísticas do blog, que o artigo mais popular é um publicado em Maio de 2010, sobre o que é a tarara (ver aqui), e verificando o quão incipiente ele é (sobretudo face aos atuais conhecimentos que desenvolvemos em torno desta atividade, por via da nossa dissertação de mestrado), é pertinente atualizar e rever esse mesmo artigo.

Ao ser colhido, muitas vezes o cereal contém algumas impurezas (como grãos de areia, ervas ou raízes), que é necessário retirar antes de se proceder à moagem. Deste modo, é utilizado um instrumento designado de tarara. A tarara pode definir-se como uma “máquina para limpar grão com uma combinação de crivos e correntes de ar geradas por pás de madeira rotativas, acionada por manivela ou pelo moinho através de poleia” (Miranda e Nascimento, 2008: 75).


Tararas na Azenha da Mãe d' Água , Chiqueda, Alcobaça (1) e no Museu Agrícola de Fermentões, Guimarães (2 e 3).

No entanto, deve-se ressalvar as limitações das tararas, segundo o referido por Miranda (2009). Com efeito, estas fazem a separação dos grãos de acordo com a amplitude e espessura, mas não são eficazes para uma separação de acordo com o comprimento. 

Por outro lado, é um instrumento de baixo rendimento, que não respondeu às necessidades cada vez mais exigentes do sector agrícola, visto que se considera terem baixo rendimento (entre 10 e 20 kg de grão numa hora). Com a finalidade de superar as limitações da tarara surgiu o aviador. Neste, o cereal

 “é deitado na tremonha ou tegão [e] vai passando lentamente para o crivo horizontal (com ligeira inclinação) na parte superior e a montante do tambor, o qual está em permanente trepidação provocada por um excêntrico e executa um ligeiro movimento de vaivém fazendo cair o grão para o tambor. Dentro do tambor, a gralhe cilíndrica assegura a triagem por seleção do calibre dos grãos que passam pelos seus furos, enquanto as impurezas ou outros grãos mais volumosos vão descaindo num cilindro até caírem num recipiente na extremidade oposta.” (Miranda, 2009: 58).


Aviador no Moinho do Pinheiro (Ribeira de Muge – Paço dos Negros)

No entanto, à semelhança de outras inovações feitas no sector da moagem, o aviador conviveu com as tararas e até o bandejamento manual, pois era bastante caro, não tendo qualquer casa disponibilidade económica para o adquirir. Este, para além de ser usado para a limpeza dos grãos que iam ser moídos, pode ser também utilizado para fazer a seleção dos melhores grãos para semente.

Quanto ao descasque de arroz, este é feito nas moegas negreiras dos moinhos (com mós de granito ou arenito), como se fosse para ser moído. No entanto, o pouso levava uma forra de cortiça. Assim, a rotação da andadeira não leva à farinação do grão de arroz, mas sim ao seu descasque, caindo depois na caixa o grão misturado com a sua casca. A separação é feita nas tararas e nos aviadores, da mesma forma que se retiravam as impurezas.

Bibliografia
MIRANDA, Jorge Augusto e NASCIMENTO, José Carlos (2008). Portugal, Terra de Moinhos. Lisboa: Chronos Editora.

MIRANDA, Jorge Augusto (2009). “«Trieur Marot» - Um aviador que revolucionou a indústria moageira mundial”, in: Molinologia Portuguesa, vol. 2. S/l: ed. Etnoideia.

TOMÉ, Samuel Rodrigues (2012). O Património Molinológico como fator identitário e vetor do desenvolvimento económico: o caso da Ribeira de Muge, dissertação de mestrado em Gestão e Programação do Património Cultural, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.