terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Moinhos de Vento no Concelho de Penacova – Parte II

Ver parte I aqui.

Tendo em consideração os três conjuntos de moinhos de vento do concelho de Penacova que falamos na primeira parte (Serra da Atalhada, Portela da Oliveira e Gavinhos), assim como algumas das suas características específicas, nomeadamente a pluri-propriedade, ainda que no mesmo conjunto, importa agora refletir sobre os engenhos que temos hoje, assim como quais os caminhos que se poderão traçar no futuro.

Em primeiro lugar, há que ter em consideração que hoje em dia os moinhos têm o seu valor de uso ultrapassado, ou seja, existem hoje meios mais eficientes de produção de farinha para a alimentação humana. Mesmo a procura pela farinha artesanal, pelas suas características, não seria por si só motivo suficiente para colocar todos os engenhos em laboração constante, sobretudo em conjuntos como aqueles que encontramos em Penacova. Importa assim encontrar outros usos para estes elementos patrimoniais.



Interior dos engenhos da Serra da Atalhada, recuperado para voltar a moer cereais.

Esta busca por uma nova funcionalidade do património poderá ter graves consequências para a integridade patrimonial. E no caso dos engenhos do concelho de Penacova, conseguimos encontrar bons exemplos e exemplos menos bons. Contudo, antes de entramos especificamente nestes casos, importa refletir que outros usos poderão ser dados a edifícios moageiros, quando a sua função inicial (a moagem), já não se torna necessária? Sem dúvida, que a transformação de património in situ deverá ser um dos caminhos. Por esta via, um engenho recuperado e aberto a visitas, permitirá descobrir como funciona aquela tecnologia e a sua importância em determinado período histórico.

No entanto, será pertinente ter, como no caso da Serra da Atalhada, 21 moinhos, praticamente alinhados e com cerca de cinco metros de intervalo entre si, recuperados e a moer cereais? Será pertinente custear a manutenção destes? Estarão os proprietários interessados em manter esta situação? Não nos parece que assim seja. E ao fazê-lo, poderíamos afirmar que se estaria a enveredar pelo caminho da designada “histeria do património”, ou seja, a quase obsessão de tornar tudo património. Então, que outros usos podem ser dados para além deste?

Alinhamento de engenhos na Serra da Atalhada

Sem dúvida que aquele que é mais comum é a transformação em habitação. Um conjunto então, torna-se bastante apetecível para a instalação de um empreendimento. Não nos choca (e esta é uma opinião muito pessoal) a adaptação de engenhos para residências ou empreendimentos turísticos. Contudo, cremos que o termo correto será precisamente “adaptação”. Não se pode faze-lo de qualquer forma, pois terá sempre de ser colocada, em primeira instância, a integridade do conjunto.

Voltando ao caso específico de Penacova, nomeadamente ao caso da Serra da Atalhada, encontramos aqui aquilo que podemos considerar um bom exemplo. Assim, de todos os engenhos, temos quatro deles sob alçada de uma associação local. Deste, um foi recuperado para a moagem, e os restantes três foram adaptados para turismo. No entanto, a sua recuperação exterior manteve a sua traça original, não desvirtuando as características do moinho serrano. Para além destes, os demais engenhos deste conjunto quando recuperados, apresentam igualmente o respeito pela traça original, não ferindo o conjunto.


Interior de um moinho, na Serra da Atalhada, recuperado para turismo de habitação.

Por outro lado, encontramos os conjuntos da Portela da Oliveira e de Gavinhos, em que o cenário já não será tão interessante assim. Aqui encontramos frequentemente os moinhos rebocados a cimento portland, desvirtuando assim as paredes em silharia, típicas do moinho serrano. Também é comum encontrar-se a aplicação de azulejos, sobretudo para a colocação de dizeres que refletem, de quando em vez, o nome ou a propriedade dos moinhos.

Moinho com paredes rebocadas - Gavinhos

Moinho com azulejos aplicados

Há a referir ainda, neste caso, o alargamento de um dos moinhos da Portela da Oliveira, para a inserção de um espaço museológico: o Museu dos Moinhos de Vitorino Nemésio. Este espaço alberga uma exposição com um espólio interessantíssimo, do ponto de vista molinológico, e que vai muito além dos moinhos de vento. Com efeito, para além de vestígios destes, encontramos aqui também mós manuais e objetos ligados aos moinhos de água. Este é um outro uso, que a nosso ver, não choca com a integridade patrimonial.

 Museu dos Moinhos Vitorino Nemésio

No entanto, temos em conta que é difícil manter uma coesão arquitetónica ao nível do conjunto, pois cada engenho tem um proprietário diferente. E os seus proprietários deverão ter a liberdade fazer o que entenderem com aquilo que é seu. Mas encontramos na Portela da Oliveira o mau resultado de intervenções nos engenhos, que os desvirtuaram completamente. Uma boa solução seria a regulamentação da intervenção nestes engenhos através dos planos de ordenamento do território, nomeadamente com planos de pormenor. Com efeito, estes poderiam prever as disposições em relação ao exterior, tipos de portas e janelas permitidas, entre outros aspetos considerados pertinentes, à semelhança daquilo que já acontece hoje em dia nos centros históricos.