sábado, 4 de janeiro de 2014

Ermida da Memória (Nazaré)


A Ermida da Memória foi mandada erguer por D. Fuas Roupinho, junto à ponta rochosa do promontório da Nazaré com a marca da ferradura do seu cavalo, onde se deu em 1182 o famoso milagre da Nazaré (ver lenda aqui).

É uma construção cúbica, com uma cobertura piramidal. Esta cobertura é revestida a azulejos padronizados do séc. XVII, de tons azuis e amarelos. A entrada é encimada por um baixo-relevo do séc. XVI. O seu interior é constituído por dois pisos. Encontramos o interior do primeiro totalmente revestido a azulejos azuis e brancos do séc. XVIII, com motivos vegetalistas. Tem ainda duas placas em lioz com o relato do milagre.



O piso inferior é a gruta, ou cripta, onde se venerou a imagem de Nossa Senhora da Nazaré (que segundo a lenda, veio da Nazaré da Galileia, tendo sido escolhida esta zona pela presença relativamente de um mosteiro, do qual resta hoje a Igreja de S. Gião). A cripta é iluminada por uma janela, cujo feixe de luz incide no nicho onde se encontrava a imagem da virgem. A abóbada deste piso é também ela revista a azulejos, com a iconografia do milagre.

Bibliografia:

CONFRARIA da Nazaré (2004). “Ermida da Memória”, Caminhos do Espírito, Percursos da Arte. S/l: ed. Região de Turismo Leiria-Fátima e Comissão de Arte e Património da Diocese de Leiria-Fátima. (pp. 183-184)


TURISMO de Portugal (2009). “Caminhos da Fé”, Roteiros Turísticos do Património Mundial: Alcobaça, Batalha e Tomar, vol. III. S/l: ed. Turismo de Portugal. 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Os Moinhos de Vento no Concelho de Penacova - Parte I

O concelho de Penacova tem três grandes conjuntos de moinhos de vento,nomeadamente os da Serra da Atalhada (com 21 engenhos), Portela da Oliveira (com 21) e Gavinhos (com 14 engenhos). 

  
Moinho de Vento do conjunto da Serra da Atalhada

Os engenhos podem ser classificados como Moinhos de vento de torre fixa de tipo Serrano. Estes engenhos são construídos com grandes blocos de pedra, ficando as paredes em silharia. A tração é feita por rabo, ou seja, para rodar o capelo, de modo a apanhar o vento dominante, há uma vara que sai deste, do lado contrário ao mastro que é empurrada pelo moleiro, de modo a tentar apanhar o vento mais favorável à atividade moageira.


A CM de Penacova editou em 2005 uma pequena publicação sobre os sistemas de moagem no concelho, obra essa que nos dá algumas ideias interessantes da particularidade e organização deste setor no passado no concelho:

1. A existência de muitos moinhos no mesmo sítio relaciona-se com o facto de aí existirem as condições ideais, do ponto de vista éolico. Na verdade, a maioria dos moinhos eram independentes entre si, tendo proprietários diferentes. Contudo, no conjunto da Portela da Oliveira, verifica-se que alguns moinhos estão situados num local mais desfavorável, pois  mesmo moleiro daria assistência a mais que um engenho.

Moinho do conjunto da Portela da Oliveira

2. Os terrenos onde se implantaram os engenhos eram baldios, o que facilitava a obtenção da autorização para construção.

3. Os moinhos tinham apenas um casal de mós, negreiro. Contudo, no último quartel do séc. XX foi adicionado em alguns deles um segundo casal, alveiro, para a moagem de trigo, produzindo assim farinha branca. No entanto, e atendendo a que se estava perante engenhos que foram feitos apenas para albergar um casal de mós, estás adaptações levaram a que apenas se pudesse trabalhar com um casal de mós de cada vez.

4. No conjunto da Portela da Oliveira verifica-se, pelos pormenores da construção, que a tração destes moinhos pode ter sido feita em tempos por sarilho (um dispositivo interior que faz a rotação do cabelo, presente sobretudo nos moinhos de vento de torre fixa no Oeste e a sul do Rio Tejo). Existem igualmente memórias de pessoas mais velhas que referem que estes engenhos "não tinham rabo e eram movidos por dentro" (Gouveia, 2005: 18). 

Conjunto de Moinhos de Gavinhos

Bibliografia:
GOUVEIA, Henrique Coutinho (2005). Sistemas de moagem no Concelho de Penacova. S/l: Ed. Câmara Municipal de Penacova.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Moinho de Vento da Quintinha – Santiago do Cacém

  
O Moinho de Vento da Quintinha, situado nos limites da Vila de Santiago do Cacém, pode ser classificado como um moinho de vento de torre fixa, de tipo saloio (é rebocado, pintado de branco e com uma barra azul escura).

É desconhecida a data da sua construção. Só se sabe que foi registado em 10 de novembro de 1871. Trabalhou até 1966. Foi adquirido pela autarquia em 1970, contudo a sua recuperação só se verificou em 1982.

Desde essa data, sempre trabalhou, apesar de presentemente ter o mastro danificado, e aguardar pela sua reparação. Os munícipes podiam ver aqui trazer os seus cereais para moer, pagando uma maquia pelo serviço, em vez de um valor monetário. Para além disto, este engenho é o primeiro “moinho-escola” de Portugal, tendo já aqui se formado, para além de alguns estagiários, o moleiro do Moinho do Esteval (Montijo).


É constituído por três pisos, sendo no superior (também chamado de sobrado), que se encontra a moega. Esta é constituída por um casal de mós negreiro, reforçado a cimento e com cambeiros de chapa. O tegão, quelha e chamadouro são de madeira (2). A tração é feita por sarilho. Tendo sido colocado um cata-vento na cobertura, foi feita a montagem de modo a que pudesse ser colocada uma seta visível no interior (3), para o moleiro saber a direção do vento, rodando assim o capelo de modo a apanhar o vento dominante.


Bibliografia:

MATIAS, José (2002). Moinhos de Vento do Concelho de Santiago do Cacém, col. Memória e Escrita Alentejana, vol.4. S/l: Edições Colibri e Centro de Estudos Documentais do Alentejo.

domingo, 15 de dezembro de 2013

O Museu Municipal de Almeirim e os Museus em Almeirim


Foi na passada 6.ª feira que foi entregue o galardão do “Museu do Ano”, pela Associação Portuguesa de Museologia (APOM). Os três finalistas eram o Museu Machado de Castro, o Museu do Ar e o Museu Municipal de Almeirim. A distinção foi entregue ex-aequo aos dois primeiros, sendo que o MMA recebeu uma menção honrosa (distinção normalmente entregue aos finalistas que não são distinguidos).

Com certeza que a presença de António Nabais e António Viana (dois nomes no mundo dos museus com uma visão e um currículo brilhante) no projeto museológico e museográfico, não estará desligada da credibilidade que pode ser conferida à exposição, e que poderá ter catapultado para esta nomeação. A exposição, apesar de contida e com uma pluralidade de temas superior ao desejável num espaço daquela dimensão, não deixa de representar aquilo que é o concelho: parte da sua história, das suas tradições e das suas memórias. Pessoalmente, sou um crítico a este tipo de museus, precisamente pela sua pluralidade temática.

O concelho de Almeirim conta com mais duas exposições desta índole: o Museu Etnográfico da Raposa, instalado na Casa da Cultura desta freguesia, assim como um acervo patrimonial na sede do Rancho Folclórico de Benfica do Ribatejo. Estas, apesar de terem características indubitavelmente mais amadoras que o MMA, reúnem um interessante espólio das suas comunidades. A articulação que poderia ser feita, ao nível do município, com todos os espaços de exposição patrimonial poderia residir na criação de museus temáticos, isto é, cada espaço um destes espaços (e outros de potencial interesse) dedicados a um determinado tema.

Por outro lado, o edifício que alberga o museu está ligado a este e deve ser encarado como uma continuidade da própria exposição, segundo o que os principais investigadores da área defendem. Algo que podemos encontrar nas exposições da Raposa (a Casa da Cultura foi uma fábrica de descasque de arroz e antes disso houvera sido um moinho) e de Benfica do Ribatejo (com a instalação numa adega pertencente a uma casa agrícola). Contudo, no caso do MMA, a instalação no Centro Coordenador de Transportes Terrestres foi não mais que a reconversão de um edifício para o qual o seu uso inicial não se verificou, não podendo assim considerar-se o edifício como uma extensão da exposição. Também o projeto Centro de Interpretação de Almeirim, que irá ficar alojado nas Escolas Velhas, cumpre com este requisito, apesar de ainda não ser do conhecimento público quais as características e temáticas da exposição.


Na museologia, como em muitos outros setores da sociedade, deve imperar a cooperação entre as várias entidades com acervos patrimoniais, em detrimento do trabalho “por capelinhas”. Evita-se assim museus muito semelhantes num espaço geográfico muito circunscrito. Constrói-se uma rede com a qual se torna mais fácil de trabalhar, na medida em que cada um não precisa de puxar para si, porque todos têm matéria diferente, não se gastando sinergias na “concorrência”, mas sim naquilo que verdadeiramente importa: cooperação, divulgação, promoção e qualidade expositiva. 

domingo, 1 de dezembro de 2013

A propósito de hoje ser 1 de Dezembro

Pouco antes das 9 horas, os conjurados e seus aderentes, em número de 120 pessoas, dirigiram-se ao Paço da Ribeira, (…), e investiram pelos vários salões, enquanto que o padre Gonçalo da Costa disparava vários tiros para anunciar a revolta e fazer afluir a multidão ao Terreiro do Paço. Escondido num armário, o secretário Miguel de Vasconcelos foi abatido a tiro e o seu corpo, ainda com sinais de vida, lançado para a rua, onde o povo deu largas ao ódio que lhe votava como fiel servidor de Castela. A princesa Margarida quis impor-se aos amotinados, mas logo compreendeu que era inútil o apelo à fidelidade, pelo que foi mandada recolher nos seus aposentos. O venerado D. Miguel de Almeida, do alto do balcão principal, proclamou a liberdade da Pátria e a realeza do Duque de Bragança como D. João IV. 
SERRÃO, Joaquim Veríssimo (2001). História de Portugal – A Restauração e a Monarquia Absoluta (1640-1750), vol. V, 2.ª edição. S/l: Ed. Verbo. 

Aclamação de D. João IV - uma pintura de Columbano Bordalo Pinheiro, que frequentemente é associada a este dia.

Comemoram-se hoje 373 da Restauração da Independência. Este é um relato desse dia numa das várias “História de Portugal” que têm sido escritas. Pela primeira vez não é feriado. 

Se as políticas educativas se têm esforçado nos últimos anos por fazer cidadãos menos cultos e menos informados, para que sejam menos reivindicativos, não é menos verdade que se têm esforçado por apagar datas históricas e de relevo para a nacionalidade portuguesa. Acabar com este feriado (ou apenas suspende-lo por um número de anos), é mais um contributo para que a data caia no esquecimento. 

Não deixa de ser interessante de ver que esta foi uma data que passou a ser feriado porque assinala o fim do domínio do estrangeiro sobre Portugal, e que tenham sido forças estrangeiras, a dita troika, a exigir o fim de feriados nacionais (tínhamos muitos, dizem eles), e que tenha sido escolhido logo este. É pelo menos coerente, pois deixamos de ser verdadeiramente independentes, e voltamos a ser dominados por forças estrangeiras. 

É urgente que a sociedade civil se mexa, não só para restaurar este e os outros feriados abolidos, mas também para que esta data histórica não caia no esquecimento, e que os portugueses tenham verdadeira consciência da sua importância. 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Museu e Igreja do Convento do Carmo – Lisboa

A origem do Convento do Carmo está ligada a D. Nuno Álvares Pereira (1360-1431), Condestável do Reino e canonizado pela Igreja Católica em Abril de 2009. A sua construção tem início em 1389 e é sagrado o templo em 1423. Edificado em estilo gótico, foi habitado pelos Frades Carmelitas, Ordem em que D. Nuno ingressou, tendo vivido neste convento e aqui ficou sepultado, por sua própria vontade.

 Interior da igreja

Considerado um dos maiores e mais importantes edifícios góticos de Lisboa, não resistiu ao terramoto de 1755, que o destruiu parcialmente, quer pelo “abanão”, quer pelo incêndio que se seguiu, que destruiu grande parte das obras de arte que este tinha. Iniciou-se apenas no reinado de D. Maria a reconstrução deste espaço. Contudo, a falta de verbas vai arrastando as obras, chegando-se à extinção das ordens religiosas em 1834, acabando apenas por se reconstruir pouco mais que arcos ogivais do corpo da igreja.

 Interior da igreja

Em 1864 o edifício é entregue à “Real Associação dos Architectos Civis e Achéologos Portugueses”, sendo fundado aqui o Museu Arqueológico do Carmo, pelo seu presidente, o arquiteto Joaquim Possidónio da Silva. No espaço da igreja encontram-se várias peças escultóricas, como lápides funerárias e um túmulo manuelino.

Quanto ao interior, tem cinco salas, correspondentes à capela-mor e capelas laterais. A primeira tem artefactos pré-históricos, dos períodos do Paleolítico, Neolítico e Calcolítico, Idades do Ferro e do Bronze. A segunda sala tem artefactos romanos (marcos miliários, sarcófagos das musas, entre outros), assim como do período visigótico e islâmico.

Túmulo de D. Fernando. Imagem retirada daqui.

A terceira sala, a principal, tem a sepultura primitiva de D. Nuno Álvares Pereira, o túmulo de D. Fernando, assim como o um busto que se crê ser de D. Afonso Henriques. A quarta sala é um tributo aos dois mais conhecidos presidentes da Associação de Arqueológos: Possidónio da Silva (que dotou este espaço de uma biblioteca para auxiliar o estudo arqueológico) e o Conde de S. Januário, que doou uma coleção de objetos exóticos (astecas, chimus e egípcios). Por fim, na última sala, é possível observar (entre outras coisas) um conjunto de azulejos barrocos, assim como uma maquete da igreja do Convento do Carmo.

Em termos técnicos, tem um folheto demasiadamente pobre, tanto em termos de informação como a nível de grafismo. A informação do espólio nas salas está razoavelmente bom, no entanto, o que se encontra na igreja, a céu aberto, tem um ar “desarrumado”, e também não abunda a informação.

Bibliografia e outras fontes:
     Museu Arqueológico do Carmo (folheto de informativo distribuído no museu).
      MARGARIDO, Manuel (2005). Nuno Álvares Pereira, col. “Grandes Protagonistas da História de Portugal”. Lisboa: ed. Planeta Agostini.

     Museuarqueologicodocarmo.pt 

domingo, 3 de novembro de 2013

"A encomenda prodigiosa" - Exposição temporária



 Tratou-se de uma exposição temporária presente no Museu Nacional de Arte Antiga e o Museu de S. Roque, em Lisboa, entre maio e outubro do presente ano. Exposição de arte sacra, intimamente ligada às origens do Patriarcado Português. Para melhor a perceber, será pertinente estabelecer, ainda que telegraficamente, alguns pontos históricos que possam dar uma melhor contextualização: 

- Em 1716 é criado o Patriarcado de Lisboa Ocidental pelo Papa Clemente XI. A Capela Real do Paço da Ribeira é elevada a Basílica Patriarcal. Este facto surge como uma política de prestígio da Coroa Portuguesa.

- Em 1718 a enviatura de Portugal à Santa Sé, existente desde 1707, é transformada numa Embaixada, após a obtenção da criação da basílica patriarcal.

- Em 1737 é atribuída a dignidade de cardinalícia ao Patriarca de Lisboa Ocidental.
- Em 1748 o Papa Bento XIV atribui a D. João V do título de Rei Fidelíssimo.

A exposição deu pelo nome completo “A Encomenda Prodigiosa, da Patriarcal à Capela Real de S. João Baptista”. O seu espólio consistia essencialmente em encomendas feitas por D. João V a vários artistas romanos, para decoração da Basílica Patriarcal. Entendida como uma extensão desta foi a Capela de S. João Baptista, na Igreja de S. Roque. Se a primeira desapareceu no terramoto de 1755, a segunda fez parte da exposição, como um verdadeiro “património in situ”. 


Esta transmite todo o esplendor e profusão decorativa do barroco, que o ouro vindo do Brasil permitia comprar. Esta capela

“Trata-se de um verdadeiro tesouro da arte, concebida em mármore e colorinda. Os escultores Maine e Giusti fizeram em Carrara os retábulos do tecto. As oito colunas são de lápis-lazuli com alabastro, sendo as figuras dos capitéis em bronze. Quadros em pintura ou em mosaico, representam o baptismo de Cristo no Rio Jordão. A capela é ainda enriquecida com um conjunto de alfaias de requintado valor artístico.” (Serrão, 2006:439).


É impossível transmitir por palavras o que se pode ver naquela exposição. Conta com uma enorme acervo, não só de alfaias litúrgicas, como também de pintura, escultura, mobiliário e paramentaria. Num esforço de trazer de vários pontos e várias coleções do país objetos diversos, foi conseguida a construção de uma exposição ímpar.


A nível da organização, a destacar a elaboração de um folheto simples e acessível, quer em linguagem, quer em grafismo. Por outro lado, elaborou-se igualmente um catálogo da exposição, algo importante não só para se conhecer mais sobre a coleção exposta, como para a fazer durar para além do prazo em que esta esteve aberta ao público. Como aspeto menos positivo, há a referir as tabelas muito pequenas (contudo, prática comum nas nossas exposições).

Bibliografia e outras fontes
(2013). A Encomenda Prodigiosa: Da Patriarcal à Capela Real de S. João Baptista. (folheto de visita à exposição).

Blog “De Lisboa para Portugal” e “Panorâmico”. (Fotos)

MATTOSO, José – dir. (1993). História de Portugal: O Antigo Regime (1620-1807), Vol. 4. S/l: Círculo de Leitores.

SERRÃO, Joaquim Veríssimo (2001). História de Portugal – A Restauração e a Monarquia Absoluta (1640-1750), vol. V, 2.ª edição. S/l: Ed. Verbo.

TENGARRINHA, José – org. (2000). História de Portugal. São Paulo: Instituto Camões.